A operaçom, porém, nom foi a única. Até o ponto de podermos dizer que em cada década da história recente, a pinça formada por forças policiais, judicatura e meios de comunicaçom do Regime jogam em perfeita coordenaçom o seu papel para blocar o desenvolvimento de forças políticas independentistas no país. Militantes partidários e activistas sociais, sindicalistas, quadros juvenis, membros de colectivos e centros sociais, estám no alvo de operaçons mui sonadas que adoitam ter muito pouco percurso jurídico. Mas a puniçom nom está tanto nas penas finais -muitas vezes inexistentes- senom no espalhamento dum clima de insegurança e assédio.

 

1991. Abafar a Assembleia do Povo Unido

 

 

A organizaçom APU nasce em 1989, defensora dum arredismo explícito, e muito vinculada a núcleos sindicais da INTG, nomeadamente na comarca de Trasancos. Popularmente, é conhecida por contextualizar politicamente as acçons do EGPGC, feito que naquela altura (anos 80 e 90 do século passado) no supom um delito na Galiza. A judicatura espanhola ainda nom inventara a tese do ‘contorno’, aplicada para ilegalizar o independentismo vasco, e portanto ninguém concebia o projecto de pôr fora da lei partidos que só combatiam com a palavra, a propaganda de rua e as manifestaçons.

Isto nom impede que a Audiência Nacional, com o alento da polícia política, nom tente asfixiar no máximo toda força dissidente. O 19 de Novembro de 1991, apenas dous meses depois de caírem os últimos membros clandestinos do EGPGC na fronteira entre a Catalunha e a França, umha importante operaçom policial dirigida por Julián Negredo, chefe superior da polícia espanhola na Galiza, assalta à noite as vivendas de Inácio Martins, Eva Loira, José Modesto Lamas, Oliva Rodrigues, Sabela Cabarcos e Olga Farinós. A operaçom é dirigida polo julgado de instruçom número 5 da Audiência Nacional, cujo titular é Baltasar Garzón. Detidos e detidas denunciarám, ao sairem das maos da polícia, diferentes graus de tortura psicológica, com uso de ameaças e coacçons.

 

Todas elas som trabalhadoras de Bazán, da sanidade ou de outros sectores industriais, estám envolvidos na luita sindical, e em iniciativas anti-repressivas como as JUGA ou feministas como as Mulheres Nacionalistas Galegas. A Polícia acusa-as de implicaçom na APU.

Num julgamento paralelo, opinadores da imprensa de grande tiragem ampliam a acusaçom ao Exército Guerrilheiro: para o colunista Leoncio González, ‘APU é a nau nodriça do EGPGC’ e protagoniza ‘umha deriva alucinatória para o expremismo mais delirante’. Antecipando-se à condena dos tribunais, o mesmo jornalista afirma, na sua coluna ‘La Rendija’, que ‘os detidos dam apoio explícito e cobertura material aos apóstolos da gelamonita’. É a peculiar interpretaçom mediática da liberdade de opiniom no Estado espanhol, na altura muito mais ampla que na actualidade. Em datas prévias às detençons, o dirigente da APU, Manolo Carneiro, manifestava aos meios que ‘os povos nunca se libertárom pola via institucional. Compreendemos o tipo de luita do EGPGC, mas nós actuamos apenas no ámbito político’.

A falta de discernimento entre legal e ilegal, opiniom e acçom, poluiu naquela altura o próprio nacionalismo. No que foi umha crise importante no sindicalismo galego, o secretariado nacional da INTG decide a expulsom dos seus cargos sindicais dos independentistas detidos, e em nota de imprensa, os seus dirigentes notificam que ‘privam dos seus direitos todos aqueles membros da APU ou qualquer filiado que publicamente se identificar com a luita armada.’

Cinco das pessoas detidas (Inácio Martins, Eva Loira, Sabela Cabarcos, Manuel Carneiro e Olga Rodríguez) entrarám na cadeia, acusados de distintos graus de relaçom com o EGPGC, mas em nenhum caso se desenvolveu nenhum processo de ilegalizaçom contra APU. Os seus portavozes, Joám Lopes e Isidoro Padim, declaram em conferência de imprensa que a operaçom enquadra-se na vontade de ‘frear a campanha pro-independência que a nossa organizaçom desenvolve em distintos concelhos galegos, amedrontando assi a nossa alternativa. Mas advertimos que esta campanha será eterna, pois imos seguir até que a consigamos.’

2005. ‘Pôr as cousas em ordem’

 

 

Quase três lustros mais tarde, e também em Novembro, um operativo dirigido desde Espanha, e neste caso orquestrado pola guarda civil, assalta dez domicílios e três centros sociais. No verao anterior, o mesmo corpo armado detivera em pleno a mesa nacional de BRIGA, numha operaçom dirigida desde julgados da província da Corunha. Tratou-se da ‘Operaçom Cacharrom’, que agora continuava, com mais meios e balbordo mediático, na ‘Operaçom Castinheira’. Com as acusaçons de ‘associaçom ilícita, apologia do terrorismo, desordes públicas’, caíam nove membros do conselho nacional da AMI e Antom Garcia Matos, um veterano militante sem relaçom com a organizaçom juvenil. Apesar de os meios empresariais insistirem em que AMI é ‘um grupúsculo sem incidência política real’, os aplausos editoriais à operaçom som quase generalizados.

A puniçom, à margem de hipotéticas condenas, incluía também o saque de domicílios (com perda de numerosos objectos pessoais nunca recuperados) e centros sociais, onde a guarda civil incautava dinheiro, material informático e propaganda política. Na altura, o movimento dos centros sociais estava recém nascido, pois os três locais assaltados tinham poucos anos de vida. A Gentalha do Pichel, em Compostela, a Revolta, em Vigo, e a Esmorga, em Ourense, habitualmente silenciados pola mídia, ganhavam o primeiro lugar dos cabeçalhos entre imagens de agentes encapuzados, pessoas algemadas e grande expectaçom vizinhal.

 

 

 

O discurso político e mediático era praticamente monolítico, com pequenos matizes: para o delegado do governo espanhol na Galiza, Ameijeiras, ‘AMI apresenta um marcado perfil antijurídico, com conotaçons de associaçom ilícita, e provados atentados contra a orde pública.’ Do mesmo modo pronunciav-sea o seu companheiro de partido no PSOE, o presidente da Junta, Pérez Touriño, ao ‘parabenizar as forças da orde polo seu bom trabalho’. Sánchez Bugallo, alcalde de Santiago, desejava que a operaçom Castinheira ‘rematasse com a impunidade da que goza a AMI’, esquecendo deliberadamente que os membros desta organizaçom eram submetidos a contínuas detençons e processos judiciais em tribunais situados em território galego. Com certa cautela exprimem-se outros jornalistas que, sem se atreverem a criticar a legalidade ou legitimidade da operaçom, questionam a sua pertinência:  ‘se conseguem enviar à clandestinidade os jarraizinhos galegos -diz J. Álvarez- estes terám acadado a maioria de idade. Os especialistas policiais tenhem fundados temores sobre a eficácia destas terápias preventivas. Quem os vai controlar na ilegalidade?’. Ante certas fissuras no bloco do poder, exprimidas em declaraçons como estas, a Associaçom Unificada de Guardas Civis irrompe em nota de imprensa opondo-se a ‘certas declaraçons desafortunadas.’

No discurso da direita extrema, Manuel Fraga Iribarne declarava que ‘quando se proponhem cousas como o estado plurinacional, ou se chama a romper Espanha, há caldo de cultivo para aparecerem grupos como estes’; e acrescentava que o operativo ‘e um bom golpe para pôr as cousas na ordem’.

 

 

Naquele tenso panorama, o nacionalismo, em posiçons de governo, tenta manter-se numha ambiguidade impossível : ‘temos que esperar a ver o que dim os juízes’, diz Anxo Quintana. E o BNG, em nota de imprensa, critica umha ‘operaçom policial com meios desproporcionados, que aliás serve para dar publicidade a expressons políticas que som residuais.’

Puniçom, além das condenas

Assim como a operaçom de 1991 se saldou sem nenhuma medida judicial contra a APU, a rusga de 2005 rematou numha causa arquivada e nom se produziu encarceramento algum. Mas em ambos os casos, numha espécie de clamor conjunto desenhado por meios de grande tiragem, casta política e brigadas de informaçom, o poder assinalava quais eram as siglas e projectos a que convinha nom achegar-se, mesmo se estava provado que nom se dedicavam à violência organizada. Os paralelismos com a actual Operaçom Jaro som evidentes, com a agravante actual de se pôr em causa, por vez primeira desde 1936, se certas organizaçons sociais e políticas nacionalistas vam ser condenadas à ilegalidade.