O ICE, serviço de imigração e fronteiras norte-americano, criou uma falsa universidade para investigar situações de migração ilegal. 250 estudantes foram detidos, muitos dos quais serão expulsos. Oito “recrutadores” enfrentam penas de prisão.
Logotipo da Universidade falsa criada pelos serviços de imigração norte-americanos.
Logotipo da Universidade falsa criada pelos serviços de imigração norte-americanos.

 

Para quem a procurasse online, a Universidade de Farmington era aparentemente apenas mais um estabelecimento de ensino superior igual a tantos outros nos Estados Unidos da América. Um site institucional, um mote em latim, Scientia et Labor, uma oferta académica dirigida a alunos de ciências, tecnologia, engenharia e matemática. Mas por detrás disso era um esquema inventado pelo Immigration and Customs Enforcement, o serviço de estrangeiros e fronteiras norte-americano, montado desde 2015.

Em janeiro passado, foi lançada a primeira parte da operação policial que levou à prisão oito recrutadores e mais de uma centena de alunos. Agora, o ICE tornou público que deteve mais 90, fazendo o número total de detidos subir até aos 250. O número total de estudantes sob suspeita é de 600.

De acordo com o Detroit Free Press e o Washington Post, 80% dos detidos preferiram já deixar o país voluntariamente, 10% receberam recentemente a notificação final de saída, os restantes 10% contestaram a expulsão. Dos oito “recrutadores”, sete declararam-se culpados e foram-lhes aplicadas penas entre um ano e dois anos. Um ainda aguarda julgamento.

Os angariadores são acusados de vender fraudulentamente a oportunidade de utilizar um visto de estudante para permanecer ilegalmente no país. Os estudantes, cidadãos que não tinham nascido nos EUA, a maior parte da Índia, foram sentenciados por aceitar o esquema, tendo conhecimento de que não haveria qualquer atividade educativa associada à Universidade. Isto apesar da Universidade estar acreditada e listada nas instituições oficiais.

O caso levantou polémica devido aos métodos utilizados pelas autoridades norte-americanas. Na Índia, houve reações de indignação porque as forças de segurança atuaram de forma a ludibriar os estudantes estrangeiros. O Times of India, aliás, sublinha que, à partida, um estudante fora dos EUA não teria qualquer forma de distinguir esta Universidade de outras antes de se ver envolvido no esquema.

Do lado norte-americano, assegura-se que se tratava de “identificar recrutadores e entidades envolvidas em fraude à imigração”, ou seja os angariadores, alega-se, já desenvolviam antes este tipo de atividade e o estratagema servia para os apanhar. Por sua vez, defende-se, os estudantes, não eram suas vítimas mas sabiam à partida “que não iriam assistir a aulas, obter créditos ou ter qualquer progresso académico com vista a alcançar um grau verdadeiro” mas o visto permitir-lhes-ia trabalhar no país. Os advogados de defesa contrapõem, em declarações publicadas no Detroit Free Press, que também neste aspeto a armadilha dos agentes provocadores do Estado não se distingue de muitos cursos legítimos. Michael Sofo, advogado da Atlanta, explicou que “há universidades específicas que têm programas de cursos avançados que envolvem primariamente treino prático desde o primeiro dia e que permite aos estudantes inscreverem-se e passar a maior parte do tempo a trabalhar. Segundo ele, este tipo de cursos “pode ser feito à distância. E não se tem de frequentar a Universidade”.