À medida que este país começa, finalmente, a examinar seu passado repulsivo e seu presente brutal, podemos também aplicar essa feroz introspecção à política dos EUA em relação a Israel?

Em Gaza, menina protesta contra a anexação de parte da Cisjordânia, planejada por Israel (Sipa via AP Images)Créditos da foto: Em Gaza, menina protesta contra a anexação de parte da Cisjordânia, planejada por Israel (Sipa via AP Images)

O assassinato de George Floyd foi a faísca de uma intifada norte-americana construída sobre 400 anos de material combustível amontoado por colonizadores e comerciantes de escravos. Depois de inúmeros episódios de brutalidade policial contra negros norte-americanos, outra reforma policial claramente não seria uma resposta suficiente. O problema era sistêmico. O sistema foi construído sobre a história e um certo modo mitológico de relatar publicamente a história. Essa história tem que ser investigada, questionada e reescrita.

Esse despertar, esse acerto público de contas com a nossa história, que Cornel West chamou de um momento de “consciência crescente”, está muito atrasado e ainda tem um longo caminho a percorrer. E enche este palestino-americano de esperança e uma pergunta: Podemos também começar a aplicar essa feroz introspecção crítica à política norte-americana em relação a Israel e àquilo que nosso apoio significa para a população palestina indígena?

Muitos israelenses sionistas ficam indignados com a noção de que o projeto deles é um projeto colonial. Como Benjamin Netanyahu disse ao Congresso israelense há vários anos: “Não somos os britânicos na Índia… Não somos os belgas no Congo.” E ele está certo. Tanto os britânicos quanto os belgas acabaram por partir. O projeto sionista, muito mais parecido com Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Canadá, e, sim, os Estados Unidos, é um projeto colonial de substituição, não simplesmente de exploração.

Este projeto também foi fundado, e continua apoiado em mitos típicos de ocupação colonial. Em vez de “ocupar o deserto”, seus adeptos falavam em “fazer o deserto florescer”. Em vez de um destino manifesto, eles propagandeiam um pacto bíblico. A população indígena (na medida em que é reconhecida) é desviada, repetidamente, através da fronteira em constante expansão. Se resistirem, sua resistência é usada para defini-los como selvagens bárbaros que só entendem a força.

Agora, Israel está se preparando para dar o próximo passo no longo processo de expansão colonial anexando formalmente mais território palestino na Cisjordânia. Embora alguns tenham caracterizado esse movimento como um passo longe demais, para os palestinos é apenas o último passo em um século de botas sobre nossos pescoços. Todas as gerações de palestinos nos últimos cem anos viram essa mesma história se desenrolar. Para a geração dos meus bisavós, a história tomou a forma de aquisição de terras por sionistas facilitada pelos britânicos, o que levou aos sem terra árabe palestinos. Para a geração dos meus avós, foi o início da Nakba — a despopulação da grande maioria dos habitantes nativos da Palestina e a negação do retorno. Para a geração dos meus pais, foi a ocupação de 1967 que produziu uma crise de refugiados. E para a minha geração, é a expansão contínua dos assentamentos sob ocupação e agora mais anexação israelense. O tempo todo, Israel engoliu mais terras, forçando os palestinos a cantões cada vez mais encolhidos.

Ao longo desse processo, os norte-americanos adotaram uma versão mitológica, uma projeção que lhes permite habilitar e apoiar Israel. Para os conservadores, essa versão tem pouco a ver com a realidade e tudo a ver com religião. Encoberto pelo fundamentalismo e pelo dispensacionalismo, o romance conservador com Israel está repleto de ideias sobre o fim dos tempos e, francamente, o antissemitismo, e até mesmo antecede o sionismo moderno. Mas a tensão liberal secular dessa mitologia também é perigosa. De democratas e progressistas, ouvimos repetidamente que os Estados Unidos devem apoiar Israel porque é uma democracia, mesmo que os militares de Israel governem milhões de pessoas que não têm o direito de votar. Ou ouvimos dizer que Israel é “uma vila na selva”, ou alguma versão semelhante deste tropo orientalista evocando a dicotomia civilizada/selvagem que foi ecoada tão recentemente quanto na semana passada por um chamado democrata progressista, Ritchie Torres.

Mas outros progressistas estão começando a traçar um caminho diferente, embora há muito atrasados. Há algum tempo, um corpo crescente de ativistas – palestinos norte-americanos, ativistas da justiça racial, judeus de esquerda, pessoas de consciência – tem se envolvido em um acerto de contas com o apoio dos EUA à opressão de Israel aos palestinos. E agora, este acerto de contas chegou ao Congresso. Na semana passada, a congressista Alexandria Ocasio-Cortez liderou uma carta que pede cortes na ajuda dos EUA a Israel, caso este país cumpra seus planos de anexação, bem como a construção de assentamentos e outros abusos de direitos. A carta, assinada por 12 membros do Congresso, todos democratas, bem como pelo senador Bernie Sanders, estabelece um marco para a direção que os progressistas assumirão na relação EUA-Israel.

A carta diz, em parte:

“A anexação unilateral na Cisjordânia é uma oposição direta aos princípios da democracia e dos direitos humanos que os Estados Unidos da América devem defender. Em um momento em que o povo norte-americano está tomando as ruas para exigir justiça para todos em nosso próprio país, não há dúvida, que tal ação indisporia muitos legisladores e cidadãos dos EUA. Não se deve esperar que os membros do Congresso apoiem um sistema antidemocrático no qual Israel governa permanentemente sobre um povo palestino destituído de autodeterminação ou direitos iguais.”

Com a montagem da oposição internacional, resta saber quando e como Israel avançará com a anexação formal — e, em alguns aspectos, não é particularmente relevante. A verdade é que, como a Corte Internacional de Justiça reconheceu em sua decisão histórica há uma década e meia, a anexação de fato existe hoje. A realidade atual no território é de apartheid, e não devemos esperar por nenhuma decisão formal israelense para nos forçar a abrir os olhos para ela.

Ainda assim, as palavras desta carta do Congresso sinalizam o início de um momento importante que vem sendo construído há anos — que foi catapultado para o presente por muitos momentos anteriores, incluindo dois significativos no verão de 2014. Enquanto bombas israelenses choviam em Gaza por dois meses, dominando as manchetes dos EUA, a polícia assassinou um jovem negro, Michael Brown, em Ferguson, Mo. A rápida justaposição desses eventos, ambos com violência estatal contra civis marginalizados, ajudou a aguçar a análise dos defensores da justiça em ambos os lados do oceano, conectando as duas lutas.

Este verão desencadeia recordações de dor e esperança. Na mesma semana em que a polícia de Minneapolis matou George Floyd, a polícia israelense matou Iyad Hallaq, um palestino de 32 anos com autismo, nas ruas de Jerusalém. E agora, os protestos globais por justiça racial surgiram ao tempo em que Israel pondera sobre sua mais recente grande apropriação de terras. Para os indígenas da Palestina e para os negros norte-americanos, que continuam a sofrer sob o racismo sistêmico nesta terra, este despertar histórico é um primeiro e necessário passo para corrigir nosso presente injusto. É um começo, um movimento essencial para desafiar os sistemas de injustiça e substituí-los por sistemas de liberdade e igualdade para todos.

Por Yousef Munayyer
*Publicado originalmente em ‘The Nation‘ | Tradução de César Locatelli para Carta Maior